AO MAR, EM BUSCA DE SI MESMO

 (SOBRE A JANGADA DE PEDRA, DE JOSÉ SARAMAGO)

 

Sandra Ferreira – UNESP/ASSIS

 

 

            Múltiplas perspectivas, inumeráveis retratos são criados pelos seres vocacionados para a autognose coletiva, a exemplo dos historiadores, artistas, poetas e romancistas. Assim cria José Saramago, cuja produção literária, desde o primeiro livro que nos chegou –  Levantado do chão (1980), obra de denúncia social centrada na repressão salazarista contra os camponeses e os sindicatos agrários –, tem se revelado um pessoalíssimo intérprete de diversos aspectos da História de Portugal, bem como uma sensível testemunha de um mundo em colapso.

            Munido de um misto de desconfiança e crença nos poderes da palavra e, muitas vezes, tendendo a assumir uma visão alucinatória do concreto e a expressar candidamente o insólito, Saramago destila uma ironia de longo alcance, de cuja pujança A jangada de pedra (1986) constitui face exemplar, já que nesse romance o autor deixa transparecer suas dúvidas sobre a União Européia e propõe abertamente uma vinculação da Península Ibérica a sua área historicamente natural de integração: África e América Latina. O fato de a referida obra vir à luz no mesmo ano em que Portugal e Espanha aliaram-se á Comunidade Econômica Européia, 1986, confere-lhe densos ares de parábola antieuropeísta. Uma reflexão sobre os torneios dessa negação e da defesa utópica de uma reconquista da própria identidade, numa configuração ideal em que Portugal e Espanha se reencontram e se reconhecem em si e entre si, constitui o propósito deste estudo.

            Quando, em Portugal, Joana Carda riscou o chão com uma vara de negrilho, Joaquim Sassa atirou ao mar uma pedra de peso descomunal, José Anaiço passou a ser acompanhado por um bando incontável de estorninhos e Maria Guavaira começou a desfazer um pé de meia, enquanto, em Espanha, Pedro Orce batia os pés no chão, produziu-se uma insólita conjunção que deu início a um rompimento geológico dos Pirineus, que se tornaria responsável pelo desligamento total da Península Ibérica, convertida em jangada, em ilha, em útero pronto a gerar um novo destino.

O cão Ardent, devotado guia da caravana que as cinco personagens enigmáticas compõem, sentiu o estalar da pedra. Sob suas patas e sob os pés de Pedro Orce o chão continuaria a tremer, durante a fantástica viagem da Península. O encontro das personagens é gradativo. Primeiro, encontram-se Joaquim Sassa, do Norte de Portugal, e José Anaiço, dos campos do Ribatejo. Ambos, em seguida, encontram Pedro Orce, espanhol de Venta Micena, onde o fóssil de um antiqüíssimo homem fora encontrado. Quando os três se reúnem, vê-se no céu um fiozinho azul. Depois, Joana Carda, mulher urbana e letrada, junta-se ao trio e, amorosamente, a José Anaiço. Finalmente, entra em cena o cão com um fio de lã azul à boca. Trata-se do guia do grupo e do fiel companheiro de Pedro Orce. Serão conduzidos pelo cão ao encontro de Maria Guavaira, camponesa que desenrola o inesgotável fio que a liga ao grupo e, particularmente, a Joaquim Sassa.

Assim atados pelo fio azul e pelos acontecimentos insólitos que protagonizaram, associados à cisão da Península, os seis empreenderão uma viagem dentro da viagem peninsular, que os levará à descoberta de novos horizontes nos planos individual e coletivo. Libertos do insípido e implacável cotidiano de obrigações, as cinco personagens partilham a aventura de resgatarem a si mesmas, fugindo das conformações estreitas e previsíveis:

 

... Se a essas pessoas pudéssemos retirar do quotidiano pardo em que vão perdendo os contornos, ou elas a si próprias por violência se retirassem de malhas e prisões, quantas mais maravilhas seriam capazes de obrar, que pedaços de conhecimento profundo poderiam comunicar, porque cada um de nós sabe infinitamente mais do que julga e cada um dos outros infinitamente mais do que neles aceitamos reconhecer. (Saramago, 1998: p.149)

 

Essa crença na vastidão do lugar humano ganha contornos de descoberta íntima e mútua entre quatro portugueses e um espanhol, argonautas pós-modernos, em busca não de ilhas afortunados ou velocinos de ouro, mas à procura dos vastos conteúdos e possibilidades humanas. A Jangada de Pedra, centrada no topos da viagem e da busca, não pertence àquela estirpe a que se refere Antonio Sérgio (1974, p.88) como o traço mais característico da literatura portuguesa de viagem, cujo exemplo maior é Os Lusíadas, a remeter à nação que descobriu o mundo. Pertence antes à linhagem de Eça de Queiroz, ao interrogar e interpelar um Portugal realmente presente, sem se deixar seduzir pelo irrealismo prodigioso de certa imagem que os portugueses fazem de si mesmos. Opta por ver em Portugal sua situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade, motivo pelo qual não poderia jamais admitir como razão de ser o ter sido.O passado de glórias e sua ambivalência são águas idas. As águas de Saramago são outras, cristalinas no refletir Portugal como “cauda da Europa”, como país de capitalismo subalterno, com possibilidades econômicas modestas e modestíssimo lugar no concerto dos povos.

Cônscio da realidade nacional de povo empobrecido, atrasado social e economicamente, com percentuais de analfabetismo únicos na Europa, Saramago parece crer que Portugal e Espanha, embora esta se encontre melhor colocada no ranking mundial, como os dois lados de uma mesma moeda de pouco valor engastada na Europa. Por isso utiliza a distância entre sobretudo Portugal e Europa da primeira e segunda revoluções industriais como fundamento para uma metáfora eloqüente: “jangada de pedra”, capaz de remeter, simultaneamente, a um distanciamento historicamente efetivo, associado ao peso imutável do que foi, e a um distanciamento almejado, voltado para a possibilidade redentora do que será. Desse modo, o sintagma “jangada de pedra” retoma dois aspectos arquetípicos da existência: dinâmico, associado à jangada como símbolo de travessia, e estático, representado pela pedra como elemento fundador do sedentarismo, ora suspenso pela força dinâmica do vocábulo a que pedra se subordina.

O dinamismo está também associado ao fenômeno geológico da cisão, já que vinculada a processos surpreendentemente insólitos como riscar o chão, atirar uma pedra, ser acompanhado por estorninhos, pisar o chão, desfiar uma meia, porquanto, nas mitologias diversas, de historiadores ou poetas, o ato do nascimento sempre apareceu, conforme observa Eduardo Lourenço, “como da ordem do injustificável, do incrível, do milagroso, ou num resumo de tudo isso, do providencial” (1991, p.19).

À história de Portugal e Espanha, tão semelhante na gesta conquistadora e insidiosamente corruptora, opõe-se o ato sem história que é o nascimento da Península flutuante, ilha migradora, barca do pretérito histórico para o futuro utópico:

 

... Vêem na aventura histórica em que nos achamos lançados a promessa de um futuro mais feliz e, para tudo dizer em poucas palavras, a esperança de um rejuvenescimento da humanidade. (Saramago, 1998, p.160)

 

Esse fausto destino por vir já se inscrevera na epígrafe do romance, tomada a Alejo Carpentier: “Todo futuro es fabuloso”. Para Saramago, o desgarramento da Península Ibérica haveria de obriga-la a um encontro com sua autêntica realidade, de modo a desmascarar a ficção representada pelas tentativas de recriar uma alma ibérica à moda do século XVI. Apagar vestígios, seja da consciência de uma fraqueza congenial, seja da convicção de uma congenial destinação a quintos impérios, para se pensar uma Península Ibérica outra, de modo a evidenciar o que há de arcaico nas imagologias de fundo traumático ou triunfante. Como contraponto, vale-se da imagem da emigração, não apenas do povo, mas da terra que o sustém. Tal imagem, certamente, há de ser pouco grata à auto-estima de qualquer povo outrora criador de povos e, de repente, instado a fundir-se com outros. Promove, todavia, uma diáspora redentora, cujo propósito parece ser o de reajustar Portugal a si mesmo, reconciliando-o com a Espanha de modo a pulverizar ressentimentos residuais e a descobrir um ponto em volta do qual o sentimento de uma identidade melhor se polariza:

 

A península parou o seu movimento de rotação, desce agora a prumo, em direção ao sul, entre África e a América Central ..., E a sua forma, inesperada para quem ainda tiver nos olhos e no mapa a antiga posição, parece gêmea dos continentes que a ladeiam “. (ibid., p.310)

 

 

O encontro da Península Ibérica com a América Central resulta em um encontro consigo mesma, pois é a sua língua, espanhola e portuguesa, que aí ecoa desde as navegações imperiais por essas mesmas águas, agora outras. Para evidenciar a nova formatação do quadro, o narrador celebra a receptividade de Portugal para com Espanha, sugerida na fecundação das portuguesas Maria Guavaira e Joana Carda pelo espanhol Pedro Orce, um símbolo do amálgama maior das Nações, sem lugar para censuras ou ressalvas em nome de jugos pretéritos.

A navegação, agora, é travessia, meio de atingir a própria essência e assumi-la como complexa, múltipla. A “jangada de pedra”, na verdade, desliza entre mitos e símbolos caríssimos à tradição ocidental. Considere-se, inicialmente, a figura do cão, “que tem todos os nomes e nenhum”, e, por ser o condutor do grupo, o único que sabe para onde vai, remete à primeira função mítica do cão, a de guia das almas. Traz à boca um fio azul, cuja origem é a meia continuamente desfeita-refeita de Maria Guavaira. O simbolismo do fio, por um lado, remete à ligação entre todos os estados da existência. Por isso, a telúrica Maria Guavaira tece, com o fio azul, pulseiras para os companheiros e coleiras para o cão e os cavalos, selando o grupo e tornando-o um microcosmo, em que a tensão existe, mas é resolvida pela compreensão, força motriz de uma navegação cujo propósito é não a descoberta de terras, mas o encontro maior de gentes.

O fio, por outro lado, converte Maria Guavaira em um misto de Ariadne e Penélope, casta, mas decidida a deixar o labirinto da solidão e a gerar vida nova, como a companheira Joana. Ambas, Joana Carda e Maria Guavaira, remetem ao ideal do eterno feminino, entendido como o próprio significado do amor e como a grande força cósmica, posto que, ao lado do instinto natural, guardam uma aspiração à transcendência, mostrando se capazes de muitos matizes, marcados todos pela bondade e pela coragem. Inscrevem-se com distinção no rol das fascinantes personagens femininas dos romances de Saramago, das quais Blimunda é inesquecivelmente paradigmática.

O sobrenome de Joana parece exercer uma função predicativa, remetendo a cardo, planta que é “símbolo de defesa periférica, de proteção do coração (cerne) contra os ataques perniciosos do exterior” (Cirlot e Gheerbrant, 1991). Assim é Joana, disposta a tudo para manter a integridade do grupo. Um dia, riscou o chão com uma vara de negrilho e os Pirineus começaram a se soltar da Europa. O instrumento desse feito remete diretamente à vara mágica da feiticeira e da fada, à vara mágica que transforma tudo que existe. Não é por acaso, portanto, que as palavras finais do romance são: “Os homens e mulheres seguirão seu caminho, que futuro, que tempo, que destino. A vara de negrilho está verde, talvez floresça no ano que vem” (Saramago, 1998, p.317). Há na possibilidade desse florescimento o reflexo da vara enquanto símbolo de uma pessoa ou grupo com quem se identifica: “se a vara brotar, é a família que está destinada a florescer” (Cirlot e Gheerbrant, 1991).

Essa reflexão, voltada para os desdobramentos das significações implicadas no desgarramento da Península Ibérica, enquanto fato real e construção simbólica, conclui que em Jangada de Pedra os movimentos fundante e último são de esperança. A expressão mais visível dessa esperança é o engravidamento coletivo das mulheres da Península:

 

... Foi o caso que, de uma hora para a outra, descontando o exagero que estas formas expeditas sempre comportam, todas ou quase todas as mulheres férteis se declararam grávidas, apesar de não se ter verificado qualquer importante alteração nas práticas contraceptivas delas e deles, referimo-nos, claro está, aos homens com quem coabitavam, regular ou acidentalmente. No ponto em que as coisas estão, as pessoas já não se surpreendem. Passaram alguns meses desde que a península se separou da Europa, viajamos milhares de quilômetros por este mar violentamente aberto, por pouco não esbarrava o leviatão contra as esbaforidas ilhas dos Açores, ou não tinha de esbarrar, como depois se viu, mas não o sabiam os homens e as mulheres que de um lado e do outro foram obrigados a fugir, acontecerem estas e tantas mais coisas, esperar o sol à mão esquerda e vê-lo aparecer à direita, e a lua, a que não bastava a inconstância em que anda desde que se desligou da terra, e também os ventos que de toda parte sopram, e as nuvens que correm de todos os horizontes e giram sobre as nossas cabeças deslumbradas, sim, deslumbradas, porque há por cima de nós um lume vivo, assim como se o homem, afinal, não tivesse de sair com históricos vagares de animalidade e pudesse ser posto outra vez, inteiro e lúcido, num mundo novamente formado, limpo e de beleza intacta. (Saramago: 1998, p.306).

 

Citação longa, porém reveladora, por sumariar as peripécias da Península mar afora e revelar que o fio que orienta a narrativa é da mesma textura daquele de Ariadne, Penélope e Maria Guavaira: destina-se a conduzir à luz, a celebrar a preponderância da vida sobre a morte, pois é a isso que remete a súbita fecundação em massa, o grande rito genesíaco que coroa a utópica viagem peninsular, anunciando os novos habitantes de um admirável mundo novo.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos. 5.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.

LOURENÇO, E. O labirinto da saudade. 4.ed. Lisboa: Dom Quixote, 1991.

SARAMAGO, J. A jangada de pedra. São Paulo: Record, 1998.

SÉRGIO, A. História de Portugal. 3.ed. Lisboa: Sá da Costa, 1974.